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fevereiro 03, 2017

Um altar de culto?


Poema "Pedra Alta" que recebi  em dia de Sol brilhante na praia de SESIMBRA, sentada na pedra conhecida por esse nome porque é sempre banhada pelas marés mas nunca coberta pela areia. Só muito mais tarde vim a saber que tinha aparecido em tempos a cruz do Senhor Jesus que ficou então a ser Padroeiro de Sesimbra com o nome de Senhor Jesus das Chagas. 
Ver a história aqui.
Segundo Ruy Ventura, esta rocha pode ter sido usada em tempos antigos como um altar de culto.

“P E D R A  A L T A”


Na praia
sentada na Pedra Alta
perguntei ao meu corpo:
"o que é que em mim é Terra?"

...Senti meu peso
na dureza da rocha fria
e minha própria solidez
ao tocá-la...

"O que é que em mim é Água?"
O barulho exaltado
duma emoção ondulada
a quietude tranquila
dum silencioso marulhar,
no interior de mim senti...

"O que é que em mim é Ar?"
Por cima da minha cabeça
vi meu pensamento partir,
turbilhar...
Senti na brisa leve e fresca
longínquas mensagens
acariciando minha pele
em íntimo diálogo...

Finalmente perguntei
ao meu corpo
(ansiosa por senti-lo):

"O que é que em mim é Fogo?"
Um suave incêndio
de pronto flamejou
e ao calor do sol
numa tocha ardente
toda me tornei...


"De onde vem tanta força?
Tanto poder?" Perguntei.

Por trás das pálpebras cerradas
tudo, de repente, se ilumina!
E do centro de mim
-cadinho alquímico-
é meu coração
quem responde...

"Da substância prima
do solvente Universal
do Caos que tudo cria...
...o Amor..."

                            sesimbra
                21 de julho de 1993

abril 07, 2013

Primavera em Sesimbra


"O lugar onde se não morre" António Telmo


De ti meu Sol
caem pérolas líquidas
sobre minha terra sequiosa

Teu beijo
acaricia a minha testa
Teu fogo
enche o meu coração

Sereno e doce abandono
abre o meu corpo
em amorosa entrega

E viva sou
por ti eternamente fecundada
em ti eternamente renascida.

Sesimbra, 4 de Abril 2013
Carminda H. Proença

março 19, 2013

A Baía de Sesimbra e a Alma Lusa

Artigo publicado no nº 11 da revista NOVA ÁGUIA-Revista de Cultura para o séc XXI e cujo tema é O Mar e a Lusofonia, "da minha língua vê-se o mar" :


Há locais onde as almas sensíveis reconhecem uma clara vibração que as eleva em asas fortes de beleza e harmonia. A zona do Parque Natural da Serra da Arrábida que se prolonga de Setúbal ao Cabo Espichel é, sem dúvida, uma delas.
Vindo da Serra, a baía de Sesimbra revela-se ao viajante como a contraparte feminina das escarpadas arribas sobre as águas da Arrábida. Útero de areia dourada e quente, ela acolhe a acariciadora ondulação vinda de longe num aconchego côncavo, onde o fogo do Sol e o brilho da Lua espelham sua eterna dança, promessa de harmoniosa união, ritmada pelo sopro do vento nas velas dos moinhos do pão que se avistam no alto do monte.
No centro em baixo junto ao mar, a Fortaleza e em cima o Castelo com altaneira Torre e Templo interno, qual eixo piramidal identitário e protetor, triangulado pelo restante da escarpa da Arrábida a nascente e pelo fértil Porto de Pesca a poente.
É por tudo isto que a Luz da baía é pura magia nos cambiantes de cores que mudam a cada instante do dia ou da noite e sempre nos encantam, remetendo a lusa alma contemplativa para essa amorosidade íntima da Alegria de simplesmente existir, de ser una com a Presença do Amor Vivo que pressente na criação e emanação de tamanha beleza.
Entrando a poente pelo mar dentro, segue-se a esta pausa que nutre e sossega o íntimo, o Cabo Espichel e seu peregrino Santuário Mariano distribuidor de Graças, lembrando que há mais caminho a descobrir na longura de um além envolto na bruma do que ainda não sabemos mas podemos pressentir em locais como este.

Sesimbra, 9h do dia 29 de Setembro de 2012, dia dos Arcanjos São Miguel, São Rafael e São Gabriel
Carminda H. Proença







julho 12, 2009

A Baía de Sesimbra e a Pedra Alta




Fotos e poema: Carminda H. Proença



“P E D R A    A L T A” (1)


Na praia
sentada na Pedra Alta
perguntei ao meu corpo:

"o que é que em mim é Terra?"
...Senti meu peso
na dureza da rocha fria
e minha própria solidez
ao tocá-la...

"O que é que em mim é Água?"
O barulho exaltado
duma emoção ondulada
a quietude tranquila
dum silencioso marulhar,
no interior de mim senti...

"O que é que em mim é Ar?"
Por cima da minha cabeça
vi meu pensamento partir,
turbilhar...
Senti na brisa leve e fresca
longínquas mensagens
acariciando minha pele
em íntimo diálogo...

Finalmente perguntei
ao meu corpo
(ansiosa por senti-lo):

"O que é que em mim é Fogo?"
Um suave incêndio
de pronto flamejou
e ao calor do sol
numa tocha ardente
toda me tornei...

"De onde vem tanta força?
Tanto poder?" Perguntei.

Por trás das pálpebras cerradas
tudo, de repente, se ilumina!
E do centro de mim
-cadinho alquímico-
é meu coração
quem responde...
"Da substância prima
do solvente Universal
do Caos que tudo cria...
...o Amor..."

(1) Poema recebido em 21 de Julho de 1993 sentada numa rocha da Praia de Sesimbra em dia de Sol quente, rocha que mais tarde soube ser chamada de “Pedra Alta” por nunca ser coberta de areia e onde se diz ter aparecido uma estátua do Senhor Jesus das Chagas, atual padroeiro de Sesimbra.


Eis a lenda (do blog  http://btrp.blogs.sapo.pt/2614.html):

"Senhor Das Chagas:

No séc. XVI houve uma revolta contra a igreja católica. Nessa altura a rainha mandou encaixotar todas as imagens que estavam nas igrejas e deitá-las ao mar.
Arrastados pelas correntes os caixotes foram levados mar fora e foram ter aos sítios mais diversos. Um deles veio ter à praia de Sesimbra.
Estavam alguns pescadores à beira mar quando viram aquele caixote a boiar junto à pedra que fica do lado nascente da fortaleza.
Trouxeram-no para a praia, abriram-no e viram uma imagem de Jesus Cristo e Ficaram muito admirados sem saberem o que fazer com ela.
Pensaram um pouco e trouxeram-no para o terreiro da Misericórdia, onde hoje em dia é o jardim, mas não tinham sítio onde o colocar. A imagem não ia ficar no chão, nem à chuva nem ao vento, por isso resolveram levantar uma tenda e fingir que aquilo era uma pequena capela, pois um dia far-se-ia uma a sério.
Todos repararam que faltava um braço à imagem, mas também sabiam que no caixote não estava. E a imagem continuou assim na pequena capela improvisada onde toda a gente ia venerá-la. Ora era costume, e ainda hoje há quem o faça, ir à praia buscar lenha para levarem para a lareira. Naquele dia, uma velhinha apanhava uns pequenos troncos na praia. Ao chegar a casa colocou os troncos no braseiro e sentou-se ali ao pé para se aquecer.
Começou a reparar que toda a madeira ardia menos aquele tronco mais grosso. A ele nem o lume chegava perto.
Intrigada pegou nele e mirou-o com atenção. Viu, então, que aquele pedaço de madeira tinha a forma de um braço.
Correu até à capela, mostrou-o ao padre e concluíram que aquele tronco especial era realmente o braço da imagem do Senhor Jesus.
Todos gritaram “milagre”, prometeram fazer todos os anos uma festa em honra do Senhor e mandaram edificar a capela da Misericórdia onde fizeram um altar para colocar a imagem do Senhor Jesus das Chagas
Todos os anos no dia 4 de Maio faz-se uma procissão que atravessa as ruas da vila de Sesimbra e que no largo da Marinha abençoa o mar para que este nunca falte com o peixe que era, até há poucos ano, o principal sustento das gentes de Sesimbra.»

junho 15, 2008

Agostinho da Silva e Sesimbra, onde foi escrito este livro

Diz António Quadros que Agostinho da Silva "visiona a Humanidade em marcha para o reino da fraternidade universal e do amor, para o advento de uma sociedade verdadeiramente humana...", "... do Espírito da Verdade, o qual garantirá a expressão e o livre desenvolvimento de todos os valores, a justiça, a liberdade, a paz."
Agostinho da Silva teve a ideia de fazer em Sesimbra um género de universidade aberta ou centro de estudos sesimbrenses, onde "conversas" substituiriam as "lições", e que seriam dadas ao ar livre e em lugares emblemáticos do concelho: Fortaleza de Santiago, Castelo, Lagoa, Cabo Espichel, etc.

Num breve ensaio dedicado a Sesimbra, "Projecto", que se manteve inédito até ser publicado em 2004 na revista "Sesimbra Acontece", Agostinho da Silva escreveu: "Vai, pois, o meu discurso, não àquele Portugal, e só esse vale a pena considerar, que inclui Corumbá na fronteira da Bolívia e Macau na fronteira da China, Lourenço Marques na fronteira da segregação e Chaves naquela fronteira que traçaram políticos esquecendo-se do preceito de que não separem os homens o que Deus juntou, mas ao Portugal que se concentra em Sesimbra, que em Sesimbra tem seu perfeito resumo com litoral de alcantil e praia, com seu castelo e seu porto, suas encostas e seus plainos, seus ocres e seus verdes, seu arreigamento no concreto e sua pronta partida para as nuvens, e que, dentro de Sesimbra, é ainda rijo núcleo em meus amigos de pesca ou pensamento, de mar ou alto, esses tais grandes em que o entusiasmo significa estar calmo e o cepticismo quer dizer, etimologicamente, não se cansar da busca."...."para lhes dizer que em Sesimbra devem surgir os primeiros núcleos em que o poder de criação que está oculto em Portugal desde o século XV desperte, ganhe forças e ajude a tirar Europa e América dos becos em que se meteram, os de se julgarem superiores, e ajudar a tirar pretos, amarelos e vermelhos dos outros becos, os de se julgarem inferores, em que a ciência volte a ser humana e de todos, como nas caravelas o foi; para lhes dizer que tem Sesimbra de pensar em que nunca mais portugueses deixem a sua terra, a não ser por franciscanamente o quererem, e que, fazendo-o, não apareçam em Paris ou Los Angeles como escravos que deles fazem os homens, mas com a fidalguia que Deus lhes deu ao nascerem. Que Sesimbra e os Amigos acordem e aprendam com quem vem e tem obrigação de ensinar o muito que ainda têm, temos de aprender; que despertem e insuflem na sensatez do mundo a loucura que lhe falta e exorcismem de vez as múmias da prudência, da sabedoria linfática e do deixa estar como está para ver como fica; e que ressuscitados eles próprios, passem a fazer de todo o emigrante um missionário daquela missão de tornar fraterno o mundo que Portugal não cumpriu outrora, peado como se encontrou por uma Igreja que só o Vaticano II passou a ver como história; por um sistema económico que só o socialismo liberal poderá mitigar e só a automação lançará também aos armazéns do passado; por um sistema político, o dos Césares de Roma, que só verdadeiramente poderá desaparecer do mundo quando renunciar cada homem a ser ele próprio, em sonho ou realidade, dentro de sua casa ou de sua nação, para seu empregado ou para seu cão, César pior que o de Roma."